#42 Os efeitos do amor
Ou melhor dizendo, do autoamor
Já são dois meses flanando. Digo “já” porque nunca tinha me sentido tão leve, que eu me lembro, por mais de três dias. Os desafios chegam, mas não abalam. A tristeza vem, mas não derruba. A preocupação surge, mas não tem vez diante da tranquilidade de ser exatamente quem eu sou. Até parece a minha analista falando, mas, que bom, sou eu. São dois meses que o meu livro, “Nada é definitivo”, veio ao mundo e me trouxe uma nova perspectiva de vida, além de quebrar alguns traumas, como aquele do qual falei no dia do lançamento de achar que não sou prioridade de ninguém. Com 200 livros vendidos naquela noite, eu percebi que eu era, sim, só que, mais do que isso, também foi embora a vontade de ser, porque dias antes do grande momento, eu vi exatamente quem estava comigo e finalmente senti que era o suficiente. Numa outra caixinha, dentro de mim, tenho preenchido com cada olhar que recebi na livraria e cada mensagem que recebo, desde então, com muito amor.
É isso. Flano porque estou carregada de amor.
Dia desses, a Catarina, leitora que conheci no Rio de Janeiro, me marcou numa foto dela lendo “Americanah”, de Chimamanda Ngozi Adichie, e da mulher dela lendo “Nada é definitivo”. Respondi que de alguma forma esses dois livros dialogam e fiquei pensando nisso até agora. “Americanah” foi o primeiro livro que eu li da autora nigeriana, além de ter sido a primeira vez que eu realmente me reconheci numa história. Lembro de caminhar pelo bairro em que eu morava com essa mesma sensação de hoje, flanando, sorrindo, feliz por não estar sozinha. Existia uma jovem negra com uma narrativa distante das que eu não reconhecia na TV, mas que, veja bem, continuava sendo negra. Naquela época foi importante saber nomear algumas emoções. Então jurei nunca mais esquecer o nome de Ifemelu, que hoje precisei de ajuda para recordar, mas que jamais saiu de mim. Acho que até vou ler de novo porque acontece uma magia toda vez que a gente se sente confortável na própria pele. A vida passa a andar sem dó de deixar o que atrasa para trás e eu acabo indo no mesmo ritmo porque tenho sede de caminho, progresso, conquista, e ando com hiperfoco em não me adaptar. Eu ando empenhada em flanar. Empenhada mesmo em me amar com todos os erros, acertos, inseguranças, anseios.
Há tantos recados que se encaixam.
A gente só precisa se atentar.
Saber a hora de mudar a rota é um dos exercícios mais importantes que eu não deixo de praticar. Coisa de longevidade mesmo. Depois de uma vida inteira olhando só para frente, principalmente agora que vivo sem sonhos.
Olhar no espelho e ver uma mulher - negra - que já realizou todos os sonhos que idealizou na adolescência é motivo de orgulho e sinônimo de resistência. Haja resistência, assim como haja sonho. Quando compramos a casa própria e lancei o meu primeiro livro (nessa ordem), prometi que eu não precisava de um próximo projeto, de outros sonhos. A realização está em realizar, mas não só. Eu quero viver esse “não só.” Quero continuar flanando um pouco, tanto para descansar, quanto para dar a oportunidade das coisas aparecerem no processo. O que não significa estar parada. No meu caso, pelo contrário. Qual corpo pode ficar parado esperando as coisas acontecerem? Definitivamente não é o meu, ainda que nada seja definitivo. Ser uma mulher que sonha e realiza também me tira aquele senso de urgência que a gente tem quando se compara. Mas está liberado, para mim, me comparar com quem me faz sentir possível.
Ouvi essa definição da Taís Araujo, em 2021, no Roda Viva. Estava trabalhando do quarto, aquela hora da noite, quando ela, no centro da Roda, falou que “representatividade nada mais é do que a gente se sentir possível.” Já devo ter escrito sobre isso outras vezes porque foi uma frase que me marcou. Foi a primeira vez que eu entendi o poder da representatividade, porque foi a primeira vez que eu consegui elaborar por que a admirava tanto, desde a adolescência. Taís sempre me fez sentir possível. Não à toa, semanas atrás, entrei emocionada no Sesc 14 Bis, aqui em São Paulo, para assistir Mudando de Pele, peça que surgiu a partir do texto da inglesa Amanda Wilkin e da vontade da atriz brasileira de trazer outros pontos de vista sobre negritude. Mais uma vez me identifiquei.
Eu literalmente me vi mudando de pele ao longo da peça, enquanto a garganta ardia segurando o choro. Se reconhecer com carinho e cuidado emociona. E, de novo, se permitir olhar sem culpa fortalece e empodera. Ainda não consigo elaborar o porque senti como senti, mas entendi todos os momentos de silêncio, solidão, explosão, desconforto, miopia, descoberta. Me vi até nas roupas largas. Armadura, expansão, esconderijo, casa. Pensava o tempo inteiro se a Stephanie, que estava do meu lado, também me via no palco. Ela viu. Chorou. Choramos. Assistir tudo aquilo foi tão libertador quanto escrever o meu livro. Ter a oportunidade de contar a própria história é tomar as rédeas da própria vida. É grandioso. Potente. Curioso. Um mergulho para dentro.
Estou usando o meu exemplo, claro, mas ninguém precisa escrever um livro para isso. Se libertar é não querer seguir com o que nos aprisionou no passado. É, inclusive, saber olhar para esse passado como fonte de inspiração, não como lugar de permanência. É poder flanar como os pássaros.
Geralmente, quando estou na praia, passo horas admirando o voo dos pássaros. Nunca tinha pensado nisso, mas agora, escrevendo, pensei que se alguém me perguntasse qual animal eu gostaria de ser, poderia responder “um pássaro bem bonito.” Despretensioso. Na dele. Gosto quando eles batem as asas até a exaustão e depois deixam o vento levar por longos períodos no ar. Tinha muita curiosidade sobre essa sensação. Flanar é não saber para onde ir, mas também esperar para ser surpreendido. Olho o tamanho deles no céu. Um caminho todo aberto pela frente.
Finalmente. Flano como os pássaros.



Estou lendo o seu livro, amando me identificar e cada dia mais apaixonada pela sua escrita. De quebra, criando coragem pra ir atrás de trabalhar com algo mais próximo do que amo ❤️
que texto maravilhoso. sinto que flanei um pouco também, te lendo.